Introduzindo e concluindo a sociologia do conhecimento de Durkheim

Síntese das principais idéias apresentadas por Durkheim na Introdução e na Conclusão de As formas elementares da vida religiosa.

Edição utilizada:
DURKHEIM, Émile. 1996. As formas elementares da vida religiosa. (Trad. Paulo Neves) São Paulo: Martins Fontes [1912]

A IDEIA DE “ELEMENTAR”
O elementar não é uma origem absoluta, apenas relativamente a uma evolução do simples para o complexo. Assim, ss formas elementares da vida religiosa estão para as formas mais evoluídas como:

  • o simples está para o complexo
  • o primitivo está para o moderno/civilizado
  • o uniforme/homogêneo está para o diversificado/heterogêneo
  • o inferior está para o superior
  • o evidente/nu está para o oculto/vestido
  • o fácil de investigar está para o difícil de investigar
  • os elementos mais característicos de uma instituição estão para os menos característicos
  • o tosco/rudimentar/grosseiro está para o elaborado
  • a solidariedade mecânica está para a solidariedade orgânica

A mudança na concepção de evolução biológica causada pela descoberta de seres monocelulares é comparada com a proposição de uma concepção de evolução social a partir da ideia de que as religiões totêmicas australianas são as mais elementares: surpreender o segredo da vida no ser protoplásmico mais simples seria como surpreender o segredo da sociedade na instituição mais simples (p.458)

O POSTULADO ESSENCIAL DA SOCIOLOGIA
Uma instituição humana não pode repousar sobre o erro e a mentira, senão encontraria resistências insuperáveis e não duraria. Portanto, uma instituição humana deve ser fundada na natureza das coisas e em necessidades humanas.

INSTITUIÇÕES SÃO COMPOSIÇÕES DOCUMENTADAS DE CRENÇAS (ideias, representações) E RITOS (ações, práticas)
Nem necessidade física ou metafísica a priori (conceitos simbólicos lógico-racionais acessíveis pelas forças do espírito), nem experiência empírica direta individual (hábitos mutáveis acessíveis comportamentalmente), mas necessidade moral concreta acessível por observação histórica e etnográfica.

  • o que há de objetivo na ideia
  • símbolos bem fundados (na natureza das coisas)
  • artifício que segue de perto a natureza
  • obras de arte (nem artificial, nem natural)
  • imitação da natureza com perfeição crescente
  • conservação do poder específico da razão (transcender o empírico) sem sair do mundo observável
  • maneiras de agir (ritos) que surgem em grupos coordenados e que se destinam a suscitar, manter ou refazer estados mentais (crenças) desses grupos

A RELIGIÃO É A INSTITUIÇÃO SOCIAL ORIGINAL (a primeira a se desenvolver e a origem de todas as outras)

  • A ciência se origina da religião e difere dela apenas em grau, não em natureza.
  • Ciência e filosofia se originam da religião.
  • Quase todas as grandes instituições sociais nasceram da religião (a possível exceção é a economia) (p.462)

CRENÇAS (ideias) E RITOS (atitudes) QUE ESTÃO NA BASE DE TODAS AS RELIGIÕES

  • distinção das coisas entre sagradas e profanas
  • noção de alma
  • noção de espírito
  • noção de personalidade mítica
  • noção de divindade nacional/internacional
  • culto negativo (com práticas ascéticas)
  • ritos de oblação
  • ritos de comunhão
  • ritos imitativos
  • ritos comemorativos
  • ritos piaculares

AS CATEGORIAS DO ENTENDIMENTO
As categorias fundamentais do pensamento (logo a ciência) têm origem religiosa. O mesmo acontece com a magia e as técnicas dela derivadas (p.462).

As categorias do entendimento são:

  • noções essenciais que dominam toda a nossa vida intelectual
  • as propriedades mais universais das coisas
  • quadros sólidos que encerram o pensamento
  • inseparáveis do funcionamento normal do espírito
  • a ossatura da inteligência
  • hábeis instrumentos/instituições de pensamento laboriosamente forjados ao longo de séculos
  • capital intelectual humano acumulado
  • acúmulo de experiência e saber (produto) de uma imensa cooperação de uma multidão ao longo das gerações
  • representações coletivas

Exemplos de categorias elementares do entendimento:

  • tempo
  • espaço
  • gênero
  • número
  • causa
  • força
  • substância
  • personalidade
  • eficácia
  • etc.

O tempo como categoria do entendimento (tempo social) é:

  • um quadro abstrado e impessoal no qual todos os acontecimentos possívels podem ser situados
  • pontos de referência fixos e determinados indispensáveis em relação aos quais todas as coisas se classificam temporalmente
  • o tempo objetivamente pensado por todos
  • o calendário (dias, semanas, meses, anos etc.) que exprime e assegura a regularidade do ritmo da atividade coletiva (ritos, festas, cerimônias…)

O espaço como categoria do entendimento (espaço social) é composto por distinções (direita/esquerda, em cima/embaixo, norte/sul, leste/oeste) provenientes da atribuição de valores afetivos coletivos (comuns) diferentes a diferentes regiões do espaço, de forma que a forma/divisão/organização social seja o modelo da forma/divisão/organização espacial e esta seja o decalque daquela.

Exemplos de categorias NÃO fundamentais do entendimento (não são encontradas nas religiões elementares):

  • contradição
  • identidade

HOMO DUPLEX (ser social e ser individual)
A ação do ser social ultrapassa a do indivíduo pois não se reduz à utilidade. O pensamento do ser social ultrapassa o do indivíduo pois não se reduz à sua experiência direta. O ser social ultrapassa o indivíduo para o bem (fortalece indivíduos normais) e para o mal (pune indivíduos desviantes).

O ser individual está para o ser social como:

  • a parte esta para o todo
  • o simples está para o complexo

MONOCAUSALISMO SOCIOLÓGICO
Para cada efeito sua causa (sempre uma única causa para cada efeito). Se a sociologia explica as formas elementares da vida religiosa, então também explicará as formas mais evoluídas (p.458)

A SOCIEDADE É A CAUSA DE QUALQUER EFEITO SOCIAL

  • A sociedade é a causa objetiva, universal e eterna da experiência religiosa (p.461).
  • A sociedade é a fonte da ação religiosa (p.462)
  • O que foi feito em nome da religião não foi feito em vão (p.463).
  • A sociedade ideal supõe a religião, não a explica (p.464).
  • A religião é a imagem da sociedade e reflete todos os seus aspectos (p.464)

SOCIEDADE É AÇÃO COLETIVA

  • a sociedade só pode fazer sentir sua influência se for um ato, e só será um ato se os indivíduos que a compõem se reunirem e agirem em comum. É pela ação comum que a sociedade toma consciência de si e se afirma; ela é, acima de tudo, uma cooperação ativa.
  • As ideias e os sentimentos coletivos só são possíveis graças a movimentos exteriores que os simbolizam (p.461-2)
  • Sociedade é ação (p.462)

O RITO/CULTO (prática) É A PROVA EXPERIMENTAL DA CRENÇA (teoria): pré-história de uma sociologia dos afetos

  • O conjunto de atos regularmente repetidos que constitui o culto é a repetição de atos com o objetivo de renovar os seus efeitos, o conjunto dos meios pelos quais eles se criam e se recriam periodicamente (p.460)
  • O sentimento de alegria, paz interior, serenidade, entusiasmo do fiel não pode ser puramente ilusório (p.460)
  • Sentimentos coletivos só podem tomar consciência de si ao se fixarem em objetos exteriores na forma de sentimentos objetivados. Sentimentos coletivos ganham assim uma existência objetiva e podem ser confundidos com o mundo objetivo, sendo na verdade uma instituição social (p.462).
  • As manobras materiais da mecânica mística e da técnica religiosa não passam do invólucro externo sob o qual se dissimulam operações mentais, visando atingir, tonificar e disciplinar consciências (p.463).

A VERDADEIRA FUNÇÃO DA RELIGIÃO É O FAVORECIMENTO DA AÇÃO

  • A verdadeira função da religião não é nos fazer pensar, mas sim nos fazer agir, nos ajudar a viver. O fiel que se pôs em contato com seu deus não é apenas um homem que percebe verdades novas que o descrente ignora, é um homem que pode mais (p.459)
  • Forças religiosas são forças humanas/morais.
  • Mesmo as forças mais impessoais e anônimas não passam de sentimentos coletivos objetivados (p.462)

O uso humano de seres humanos (Wiener 1989 [1950])

WIENER, Norbert. 1989. The human use of human beings: Cybernetics and society. London: Free Association Books. [1950]

SOCIOLOGIA WIENERIANA

It is the thesis of this book that society can only be understood through a study of the messages and the communication facilities which belong to it; and that in the future development of these messages and communication facilities, messages between man and machines, between machines and man, and between machine and machine, are destined to play an ever increasing part. (Wiener 1989:16)

This matter of social feedback is of very great so- ciological and anthropological interest. The patterns of communication in human societies vary widely. (Wiener 1989:50)

ANTI-ANTROPOLOGIA WIENERIANA

When I give an order to a machine, the situation is not essentially different from that which arises when I give an order to a person. In other words, as far as my consciousness goes I am aware of the order that has gone out and of the signal of compliance that has come back. To me, personally, the fact that the signal in its intermediate stages has gone through a machine rather than through a person is irrelevant and does not in any case greatly change my relation to the signal. (Wiener 1989:16)

ORDER-INFORMATION AGAINST NATURE-ENTROPY

The commands through which we exercise our control over our environment are a kind of information which we impart to it. Like any form of information, these commands are subject to disorganization in transit. They generally come through in less coherent fashion and certainly not more coherently than they were sent. In control and communication we are always fighting nature’s tendency to degrade the organized and to destroy the meaningful; the tendency, as Gibbs has shown us, for entropy to increase. (Wiener 1989:17)

INFORMATION

Information is a name for the content of what is exchanged with the outer world as we adjust to it, and make our adjustment felt upon it. The process of receiving and of using information is the process of our adjusting to the contingencies of the outer environ- ment, and of our living effectively within that environment. (Wiener 1989:17-8)

It is, of course, possible that the relation between the line and the terminal machine is so perfect that the amount of information contained in a message, from the point of view of the carrying capacity of the line, and the amount of information of the fulfilled orders, measured from the point of view of the operation of the machine, will be identical with the amount of in- formation transmitted over the compound system consisting of the line followed by the machine. In general, however, there will be a stage of translation between the line and the machine; and in this stage, information may be lost which can never be regained Indeed, the process of transmitting information may involve several consecutive stages of transmission following one another in addition to the final or effective stage; and between any two of these there will be an act of translation, capable of dissipating information. That information may be dissipated but not gained, is, as we have seen, the cybernetic form of the second law of thermodynamics. (Wiener 1989:78)

[i]t is not the quantity of information sent that is important for action, but rather the quantity of information which can penetrate into a communication and storage apparatus sufficiently to serve as the trigger for action. (Wiener 1989:93-4)

What is important is not merely the information that we put into the line, but what is left of it when it goes through the final machinery to open or close sluices, to synchronize generators, and to do similar tasks. In one sense, this terminal apparatus may be regarded as a filter superimposed on the trans- mission line. Semantically significant information from the cybernetic point of view is that which gets through the line-plus-filter, rather than that which gets through the line alone. […] Semantically significant information in the machine as well as in man is information which gets through to an activating mechanism in the system that receives it, despite man’s and/or nature’s attempts to subvert it. (Wiener 1989:94)

CYBERNETIC CIGAR

If I pick up my cigar, I do not will to move any specific muscles. Indeed in many cases, I do not know what those muscles are. What I do is to turn into action a certain feedback mechanism; namely, a reflex in which the amount by which I have yet failed to pick up the cigar is turned into a new and increased order to the lagging muscles, whichever they may be. In this way, a fairly uniform voluntary command will enable the same task to be performed from widely varying initial positions, and irrespective of the decrease of con- traction due to fatigue of the muscles. (Wiener 1989:26)

TESE

It is my thesis that the physical functioning of the living individual and the operation of some of the newer communication machines are precisely parallel in their analogous attempts to control entropy through feed- back. (Wiener 1989:26)

LEARNING REFLEX

[F]eedback, [is] the property of being able to adjust future conduct by past performance. Feedback may be as simple as that of the common reflex, or it may be a higher order feedback, in which past experience is used not only to regulate specific movements, but also whole policies of behavior. Such a policy-feedback may, and often does, appear to be what we know under one aspect as a conditioned reflex, and under another as learning. (Wiener 1989:33)

I repeat, feedback is a method of controlling a system by reinserting into it the results of its past performance. If these results are merely used as numerical data for the criticism of the system and its regulation, we have the simple feedback of the control engineers. If, however, the information which proceeds backward from the performance is able to change the general method and pattern of performance, we have a process which may well be called learning.(Wiener 1989:61)

REDUCING THE FUTURE TO THE PAST

Thus the nervous system and the automatic machine are fundamentally alike in that they are devices which make decisions on the basis of decisions they have made in the past. (Wiener 1989:33)

DECADANCE AVEC ELEGANCE

In a very real sense we are shipwrecked passengers on a doomed planet. Yet even in a shipwreck, human decencies and human values do not necessarily vanish, and we must make the most of them. We shall go down, but let it be in a manner to which we may look forward as worthy of our dignity. (Wiener 1989:40)

TEMPORALIDADE (feedback)

[T]he environment, considered as the past experience of the individual, can modify the pattern of behavior into one which in some sense or other will deal more effectively with the future environment. (Wiener 1989:48)

FASCIST ANTS

While it is possible to throw away this enormous advantage that we have over the ants, and to organize the fascist ant-state with human material, I certainly believe that this is a degradation of man’s very nature, and economically a waste of the great human values which man possesses. […] I am afraid that I am convinced that a community of human beings is a far more useful thing than a community of ants; and that if the human being is condemned and restricted to perform the same functions over and over again, he will not even be a good ant, not to mention a good human being.(Wiener 1989:52)

MEMORY

The physiological condition for memory and hence for learning seem.s to be a certain continuity of organization, which allows the alterations produced by outer sense impressions to be retained as more or less permanent changes of structure or function. (Wiener 1989:55)

“ONE-HOSS SHAY” (Oliver Wendell Holmes); O ANTI-SIMONDON (anti-manutenção)

This hoary vehicle, as you recollect, after one hundred years of service, showed itself to be so carefully designed that neither wheel, nor top, nor shafts, nor seat contained any part which manifested an uneconomical ex- cess of wearing power over any other part. Actually, the “one-boss shay” represents the pinnacle of engineering, and is not merely a humorous fantasy. If the tires had lasted a moment longer than the spokes or the dashboard than the shafts, these parts would have carried into disuse certain economic values. These values could either have been reduced without hurting the durability of the vehicle as a whole, or they could have been transferred equally throughout the entire vehicle to make the whole thing last longer. Indeed, any structure not of the nature of the “one-boss shay” is wastefully designed. (Wiener 1989:60)

IF…

If then, it is possible without excessive cost to devise an apparatus which will record my past conversations, and reapportion to me a degree of service corresponding to the frequency of my past use of the telephone channels, I should obtain a better service, or a less expensive one, or both. (Wiener 1989:60)

PREDICTING MACHINES THAT KILL

Another example of the learning process appears in connection with the problem of the design of prediction machines. At the beginning of World War II, the comparative inefficiency of anti-aircraft fire made it necessary to introduce apparatus which would follow the position of an airplane, compute its distance, determine the length of time before a shell could reach it, and figure out where it would be at the end of that time. If the plane were able to take a perfectly arbitrary evasive action, no amount of skill would permit us to fill in the as yet unknown motion of the plane between the time when the gun was fired and the time when the shell should arrive approximately at its goal. However, under many circumstances the aviator either does not, or cannot, take arbitrary evasive action. He is limited by the fact that if he :makes a rapid turn, centrifugal force will render him unconscious; and by the other fact that the control mechanism of his plane and the course of instructions which he has received practically force on him certain regular habits of control which show themselves even in his evasive action. These regularities are not absolute but are rather statistical preferences which appear most of the time. (Wiener 1989:61)

WORLD STATE

It is even possible to maintain that modem communication, which forces us to adjudicate the international claims of different broadcasting systems and different airplane nets, has made the World State inevitable. (Wiener 1989:92)

HOMEOSTASISLAND

Life is an island here and now in a dying world. The process by which we living beings resist the general stream of corruption and decay is known as homeostasis. (Wiener 1989:97)

THE PATTERN THAT CONNECTS

It is the pattern maintained by this homeostasis, which is the touchstone of our personal identity. Our tissues change as we live: the food we eat and the air we breathe become flesh of our flesh and bone of our bone, and the momentary elements of our flesh and bone pass out of our body every day with our excreta. We are but whirlpools in a river of ever-flowing water. We are not stuff that abides, but patterns that perpetuate themselves. […] A pattern is a message, and may be transmitted as a message. (Wiener 1989:96)

the individuality of the body is that of a flame rather than that of a stone, of a form rather than of a bit of substance. (Wiener 1989:102)

TELE

To see and to give commands to the whole world is almost the same as being everywhere. (Wiener 1989:97)

AMERICANS

I am writing this book primarily for Americans in whose environment questions of information will be evaluated according to a standard American criterion: a thing is valuable as a commodity for what it will bring in the open market. […] The fate of information in the typically American world is to become something which can be bought or sold. (Wiener 1989:113)

INVENTION

Invention came to mean [with Thomas Edison], not the gadget-insight of a shop-worker, but the result of a careful, comprehensive search by a team of competent scientists. (Wiener 1989:115)

SCIENCE

Scientific discovery consists in the interpretation for our own convenience of a system of existence which has been made with no eye to our convenience at all. (Wiener 1989:124)

TECHNOSLAVES

Let us remember that the automatic machine, whatever we think of any feelings it may have or may not have, is the precise economic equivalent of slave labor. (Wiener 1989:162)

Agências elementares (hekura em Plotkin 1993)

At the edge of my field of vision, tiny figures began to appear. […] By now my senses had been severely altered. My hearing was especially acute; I felt as if I could gear everything in the shabono [maloca Yanomami]. My field of vision had been greatly expanded: it was as if I were looking at the world through a wide-angle lens. At the edge of my field of vision, the little figures began to dance. […] In the distance, I heard a giant crocodile slowly slide off a riverbank into the water in search of a fat fish; in the hills to the east, several male cock-of-the-rock cried Mewh, Mewh to attract females; a huge harpy eagle sailed under the canopy in search of capychin monkeys, while a giant jaguar emitted a series of deep guttural grunts. To the north I heard the far-off waters of the Orinoco flowing toward the rapids that churned the river as it made its ay to the coast. To the south a soft rain gently pelted the canopy covering the mountains that form the border with Brazil. […] Then my attention foused again on the images. The little figures at the edge of my field of vision multiplied in number as they danced faster and faster. I tried to get a better look, but it was like standing backward in front of a mirror and trying to turn around fast enough to see the back of your head: every time you look, the image is gone. I asked the shaman who the little men were. […] “They are the hekura”, he replied, “the spirits of the forest.” (Plotkin 1993:265-6)

PLOTKIN, Mark J. 1993. Tales of a shaman’s apprentice: an ethnobotanist searches for new medicines in the Amazon rain forest. New York: Viking.

A questão latouriana

LATOUR, Bruno. 2011. Avoir ou ne pas avoir de réseau: that’s the question. In: Madeleine Akrich; Yannick Barhe; Fabian Muniesa; Philippe Mustar (orgs.). Débordements: mélanges offerts à Michel Callon. Paris: Presses de Mines, pp.257-67.

DIDEROT

Depuis le début, c’est bien dans le Rêve de d’Alembert de Diderot que nous avions placé l’origine de ce terme de rets ou de réseau, bien avant que la toile d’Internet d’une part, l’analyse des réseaux sociaux, d’autre part, ne viennent ajouter d’autres affûtiaux à notre créature commune. (Latour 2011:1)

TRADUÇÃO (entre ator e rede)

Ce qui choque dans l’acteur-réseau et ce qui nous fait toujours accuser de duplicité, c’est que nous définissons un acteur par la liste de ses relations – son réseau donc – alors que nous ne définissons un réseau que par la liste des acteurs qui le composent. La duplicité vient de ce que si la première expression est juste – un acteur n’est que ses relations – on ne voit pas pourquoi on ne s’en tient pas tout simplement au réseau puisqu’il devrait suffire à définir tout ce qui est important dans les acteurs. Et pourtant, nous basculons aussitôt (car nous aussi nous avons notre jeu de bascule), dans un argument où, tout à coup, c’est l’originalité et, pour lui donner son nom exact, l’irréductibilité de l’acteur qui passe au premier plan. C’est qu’il manquait à la simple liste des relations cette transformation profonde que chaque acteur fait subir à ses relations si bien que, malgré ce que nous disions la minute d’avant, non, finalement, un acteur ne se définit plus simplement par la liste de ses relations… Ou plus exactement (mais s’agit-il simplement d’une habileté de langage ?), un acteur c’est la liste de ses relations plus la transformation que chacun des items de la liste a subi au voisinage ou à l’occasion de cette relation. Ce petit plus que nous ajoutons en douce a reçu un nom canonique : celui de traduction et a fait l’objet du premier article publié par Michel Callon (Latour 2011:1)

MEDIAÇÃO (princípio da irredução)

Avec ce principe [d’irréduction], apparaissait la notion clef de médiation qui a fait la fortune (intellectuelle en tout cas) du CSI. Pour résoudre le problème de l’acteur et du réseau, il faut toujours, en pratique aussi bien qu’en théorie, passer par un troisième terme, la médiation, qui permettra de suivre par quelle traduction précise telle ou telle
relation participe à la définition d’un acteur quelconque. (Latour 2011:4)

MEDIAÇÃO e TRADUÇÃO (entre o ator e a rede)

l’enquête commence par une médiation, suit ou enfile les traductions et tombe sur une série de surprises ou d’épreuves où se noue et se dénoue la question même des acteurs et de leur réseau (Latour, 2006). Notre intérêt n’a donc jamais été de définir s’il fallait « partir des individus » ou bien « partir de leurs relations » puisque ces deux étapes sont toutes les deux secondaires par rapport aux termes premiers de médiation et de traduction. (Latour 2011:5)

TAR (método de pesquisa e não ontologia social)

La théorie de l’acteur-réseau n’est pas une théorie sur la nature du monde social (ce n’est pas une métaphysique du social), mais une théorie sur l’enquête en science sociale. (Latour 2011:6)

[D]ans sa version graphique, l’acteur réseau n’est défini que comme un point dénué d’épaisseur défini strictement par la liste de ses liens. […] Mais […] l’acteur-réseau est une théorie de l’enquête et non pas une description des êtres du monde : le réseau, au sens technologique, est le résultat de la mise en place d’un acteur-réseau (soit par l’enquêteur, soit par ceux dont il suit la trajectoire). (Latour 2011:9)

SOCIAL x ASSOCIAÇÕES

les sociologues du social expliquent le social par une liste délimitée à l’avance d’êtres qui composent la société ; la théorie de l’enquête proposée par l’acteur-réseau consiste à inventer à chaque fois un compteur nouveau qui va permettre d’enregistrer par l’intermédiaire des associations surprenantes les êtres qui composent les associations (les « alliés » […]). (Latour 2011:7)

c’est le devoir des sociologues du social de définir d’avance les êtres, et c’est le devoir des sociologues de l’association de ne pas les définir d’avance. (Latour 2011:7)

RELAÇÕES entre NÓS x NÓS de RELAÇÕES

L’opposition est en effet totale si l’on prend le réseau au sens technologique ou visuel d’un graphe fait de points reliés par des lignes et si l’on définit un point par le croisement de deux lignes. (Latour 2011:8)

ONDA-PARTÍCULA

Donnez-vous une liste de qualités, vous ne définirez aucun acteur puisque l’acteur se définit par la modification (la traduction) qu’il va faire subir à chacune des qualités qui le définissent (et donc le définissent « mal » ou du moins « pas tout à fait »). Inversement, essayez de définir un acteur (une essence, une substance) et aussitôt vous serez dirigés ou déplacés parfois très loin dans la liste des relations ou des attributs qui le définissent. Autrement dit, les deux prises possibles – partir d’un acteur ou partir de ses attributs – manquent l’une après l’autre. Ce n’est plus un jeu de bascule, c’est un problème théorique fondamental qui rappelle un peu, toutes proportions gardées, l’onde-corpuscule de la physique d’entre-deux-guerres.. (Latour 2011:11)

OS 4 MOMENTOS DO MOVIMENTO DA PESQUISA (a “originalidade” da TAR)

Supposons qu’on vous parle d’un collègue que vous n’avez jamais vu […] [:] Ztefan Zhshizki. […] 1° quand j’entends pour la première fois parler de Ztefan Zhshizki, aucun attribut ne lui est justement attribué en propre et donc ce n’est même pas un nom propre, mais un simple flatus vocis aussitôt oublié ; 2° quand je commence peu à peu à enquêter sur le web, « Ztefan Zhshizki » est entièrement réductible à la liste peu à peu dressée de ses relations, à ceci près que, 3° à force de les entrer une à une dans la définition de Ztefan Zhshizki chacune commence à subir des modifications dues à la présence des autres déjà en place (par exemple : comme c’est étrange, ce même psychanalyste qui a travaillé avec Lacan est aussi champion de golf et l’inventeur d’un psychotrope qui fait de lui le conseiller d’une grande compagnie pharmaceutique suisse ? ) ; 4° à force de modifier chaque relation que j’entre dans ma base de données mentales à cause de ce que lui fait subir la présence des relations déjà recueillies, je vais commencer à inverser le sens des entrées et des sorties et me mettre à résumer l’ensemble de la base maintenant très longue par l’expression d’un nom devenu peu à peu enfin vraiment propre « Ztefan Zhshizki ». Dans quelques années peut-être j’utiliserai même ce nom propre comme un nouveau nom commun, une nouvelle relation pour définir quelqu’un d’autre en disant « décidemment, celui-là c’est un vrai Ztefan Zhshizki », transformation qu’ont subi aussi bien Kafka, Poubelle que Socrate ou Guillotin. (Latour 2011:15, 17)

tout le problème de se représenter les monades [atores-rede] c’est de pouvoir suivre visuellement ce mouvement d’accordéon par lequel, [1] à un moment donné de l’enquête, elles ne sont qu’un point sans attribut ; [2] au moment suivant un point composé de la simple intersection de qualités venues d’ailleurs ; [3] puis au moment suivant – tout est là – un espace composite propre et irréductible qui inclue dans une enveloppe (une sphère pour Sloterdijk, une société pour Whitehead) les attributs que l’on retrouve maintenant transformés et traduits [4] au point qu’ils semblent émaner d’elle […] avant peut-être de subir encore bien d’autres transformations, de se trouver réduits à un point par une autre monade ou au contraire de les englober toutes. (Latour 2011:21)

QUESTÃO DE VISUALIZAÇÃO

La question se pose donc de savoir pourquoi l’on s’est obstiné et l’on s’obstine toujours à représenter graphiquement le tracé d’un acteur-réseau en se limitant à l’une seulement de ses manifestations (le deuxième moment dans l’exemple choisi) alors que les suivants seraient bien plus significatifs. Est-ce un défaut définitif des techniques de visualisation numérique ? Est-ce un manque d’imagination de notre part ? Est-ce faute de comprendre exactement le mouvement propre de l’acteur réseau – un graphe n’est pas du tout un acteur-réseau ?. (Latour 2011:22)

O “MOVIMENTO-SANFONA” (tornado visível pelas tecnologias digitais)

[C]e phénomène d’accordéon par lequel je puis très vite passer des attributs à la substance et de celle-ci aux attributs, est rendu visible pour une multitude d’événements par les technologies numériques alors qu’il y a trente ans, quand nous avons commencé les science studies, on ne pouvait les percevoir que dans les seuls cas des innovations savantes et techniques. […] Avant les techniques numériques, nous n’aurions jamais eu cette expérience frappante de la composition et de la décomposition des images. Il y a bien une philosophie associée au numérique et c’est bien vrai, en fin de compte, que la théorie de l’acteur-réseau s’y trouve, malgré tous les dangers de confusion, comme un poisson dans l’eau. (Latour 2011:19, 20)

TOMAS SARACENO

On remarque en effet que les sphères (et même les sphères à l’intérieur d’une sphère comme les ribosomes à l’intérieur d’une cellule) sont bel et bien définies par des relations et uniquement par elles (comme les noms propres de tout à l’heure par l’ensemble de leurs attributs) et que pourtant, il y a bien une différence entre les points définis par de simples intersections (les réseaux anémiques que je critiquais plus haut) et les enveloppes. Mais cette différence n’est pas obtenue par un changement de vocabulaire ou de médium (comme si l’on passait des relations aux êtres, des fils aux enveloppes), mais seulement, et c’est là tout l’intérêt de cette œuvre d’art, par la densification des relations qui finissent localement par « faire bord » et « faire frontière ». Une enveloppe, après tout, n’est qu’un réseau plus ramassé de même qu’un réseau n’est qu’une enveloppe un peu plus lâche. On doit pouvoir passer de l’une à l’autre, sans avoir pour autant à sauter de l’approche par les attributs à l’approche par les substances. Or, ne pas faire de saut, c’est là l’exigence suprême de l’enquête puisque c’est la continuité de l’acteur et du réseau qui assure la traçabilité des données. L’œuvre de Saraceno résout visuellement l’un des puzzles de l’acteur- réseau puisqu’elle obtient les entités sans avoir à entourer des relations par un volume venu d’ailleurs et qui appartiendrait de ce fait à une autre ontologie. […] Inversement, on peut imaginer que si l’on avait le droit de tirer sélectivement sur les élastiques qui composent l’installation, on passerait peu à peu d’une enveloppe déchirée à une intersection puis à une simple droite. Comme le prouve cette installation, la rupture entre l’acteur et le réseau, l’être et les relations, l’imaginaire des sphères et l’imaginaire des filets n’est probablement due qu’à un manque d’imagination de notre part. (Latour 2011:24, 25)

Novum Organum (Bacon 1620)

BACON, Francis. 1620. Novum Organum; ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. Tradução usada: José Aluysio Reis de Andrade.

MÉTODO (uma dialética com lastro instrumental)

Nosso método […] é tão fácil de ser apresentado quanto difícil de se aplicar. Consiste no estabelecer os graus de certeza, determinar o alcance exato dos sentidos e rejeitar, na maior parte dos casos, o labor da mente, calcado muito de perto sobre aqueles, abrindo e promovendo, assim, a nova e certa via da mente, que, de resto, provém das próprias percepções sensíveis. Foi, sem dúvida, o que também divisaram os que tanto concederam à dialética. Tornaram também manifesta a necessidade de escoras para o intelecto, pois colocaram sob suspeita o seu processo natural e o seu movimento espontâneo. Mas tal remédio vinha tarde demais, estando já as coisas perdidas e a mente ocupada pelos usos do convívio cotidiano pelas doutrinas viciosas e pela mais vã idolatria. Pois a dialética, com precauções tardias, como assinalamos, e em nada modificando o andamento das coisas, mais serviu para firmar os erros que descerrar a verdade.

ANTECIPAÇÃO DA MENTE (dedução argumetativa humana) x INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA (indução objetiva divina)

Que haja, pois talvez seja propício para ambas as partes, duas fontes de geração e de propagação de doutrinas. Que haja igualmente duas famílias de cultores da reflexão e da filosofia, com laços de parentesco entre si, mas de modo algum inimigas ou alheia uma da outra, antes pelo contrário coligadas. Que haja, finalmente, dois métodos, um destinado ao cultivo das ciências e outro destinado à descoberta científica. Aos que preferem o primeiro caminho, seja por impaciência, por injunções da vida civil, seja pela insegurança de suas mentes em compreender e abarcar a outra via (este será, de longe, o caso da maior parte dos homens), a eles auguramos sejam bem sucedidos no que escolheram e consigam alcançar aquilo que buscam. Mas aqueles dentre os mortais, mais animados e interessados, não no uso presente das descobertas já feitas, mas em ir mais além; que estejam preocupados, não com a vitória sobre os adversários por meio de argumentos, mas na vitória sobre a natureza, pela ação; não em emitir opiniões elegantes e prováveis, mas em conhecer a verdade de forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos da ciência, que se juntem a nós, para, deixando para trás os vestíbulos das ciências, por tantos palmilhados sem resultado, penetrarmos em seus recônditos domínios. E, para sermos melhor atendidos e para maior familiaridade, queremos adiantar o sentido dos termos empregados. Chamaremos ao primeiro método ou caminho de Antecipação da Mente e ao segundo de Interpretação da Natureza.

XIX – Só há e só pode haver duas vias para a investigação e para a descoberta da verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade. Esta é a que ora se segue. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade. Este é o verdadeiro caminho, porém ainda não instaurado.

XXII – Tanto uma como a outra via partem dos sentidos e das coisas particulares e terminam nas formulações da mais elevada generalidade. Mas é imenso aquilo em que discrepam. Enquanto que uma perpassa na carreira pela experiência e pelo particular, a outra aí se detém de forma ordenada, como cumpre. Aquela, desde o início, estabelece certas generalizações abstratas e inúteis; esta se eleva gradualmente àquelas coisas que são realmente as mais comuns na natureza.

XXIV – De modo algum se pode admitir que os axiomas constituídos pela argumentação valham para a descoberta de novas verdades, pois a profundidade da natureza supera de muito o alcance do argumento. Mas os axiomas reta e ordenadamente abstraídos dos fatos particulares, estes sim, facilmente indicam e designam novos fatos particulares e, por essa via, tornam ativas as ciências.

XXVI – Para efeito de explanação, chamamos à forma ordinária da razão humana voltar-se para o estudo da natureza de antecipações da natureza (por se tratar de intento temerário e prematuro). E à que procede da forma devida, a partir dos fatos, designamos por interpretação da natureza.

XXVII – As antecipações são fundamento satisfatório para o consenso, pois, se todos os homens se tornassem da mesma forma insanos, poderiam razoavelmente entender-se entre si.

XXVIII – Ainda mais, as antecipações são de muito mais valia para lograr o nosso assentimento, que as interpretações; pois, sendo coligidas a partir de poucas instâncias e destas as que mais familiarmente ocorrem, desde logo empolgam o intelecto e enfunam a fantasia; enquanto que as interpretações, pelo contrário, sendo coligidas a partir de múltiplos fatos, dispersos e distanciados, não podem, de súbito, tocar o intelecto, de tal modo que, à opinião comum, podem parecer quase tão duras e dissonantes quanto os mistérios da fé.

XXIX – Nas ciências que se fundam nas opiniões e nas convenções é bom o uso das antecipações e da dialética, já que se trata de submeter o assentimento e não as coisas.

XXXVI – Resta-nos um único e simples método, para alcançar os nossos intentos: levar os homens aos próprios fatos particulares e às suas séries e ordens, a fim de que eles, por si mesmos, se sintam obrigados a renunciar às suas noções e comecem a habituar-se ao trato direto das coisas.

XCVIII – Os fundamentos da experiência — já que a ela sempre retomamos — até agora ou foram nulos ou foram muito inseguros. Até agora não se buscaram nem se recolheram coleções de fatos particulares, em número, gênero ou em exatidão, capazes de informar de algum modo o intelecto. Mas, ao contrário, os doutos, homens indolentes e crédulos, acolheram para estabelecer ou confirmar a sua filosofia certos rumores, quase mesmo sussurros ou brisas de experiência, a que, apesar de tudo, atribuíram valor de legítimo testemunho. Dessa forma, introduziu-se na filosofia, no que respeita à experiência, a mesma prática de um reino ou Estado que cuidasse de seus negócios, não à base de informações de representantes ou núncios fidedignos, mas dos rumores ou mexericos de seus cidadãos.

“PROCURE FAZER USO DE SEU PRÓPRIO JUÍZO”

Procuramos cercar nossas reflexões dos maiores cuidados, não apenas para que fossem verdadeiras, mas também para que não se apresentassem de forma incômoda e árida ao espírito dos homens, usualmente tão atulhado de múltiplas formas de fantasia. Em contrapartida, solicitamos dos homens, sobretudo em se tratando de uma tão grandiosa restauração do saber e da ciência, que todo aquele que se dispuser a formar ou emitir opiniões a respeito do nosso trabalho, quer partindo de seus próprios recursos, da turba de autoridades, quer por meio de demonstrações (que adquiriram agora a força das leis civis), não se disponha a fazê-lo de passagem e de maneira leviana. Mas que, antes, se inteire bem do nosso tema; a seguir, procure acompanhar tudo o que descrevemos e tudo a que recorremos; procure habituar-se à complexidade das coisas, tal como é revelada pela experiência; procure, enfim, eliminar, com serenidade e paciência, os hábitos pervertidos, já profundamente arraigados na mente. Aí então, tendo começado o pleno domínio de si mesmo, querendo, procure fazer uso de seu próprio juízo.

XCVIIAté agora ninguém surgiu dotado de mente tão tenaz e rigorosa que haja decidido, e a si mesmo imposto, livrar-se das teorias e noções comuns e aplicar, integralmente, o intelecto, assim purificado e reequilibrado, aos fatos particulares. Pois a nossa razão humana é constituída de uma farragem e massa de coisas, procedentes algumas de muita credulidade, e outras do acaso e também de noções pueris, que recebemos desde o início.

OBEDECER A NATUREZA PARA DOMINÁ-LA

I – O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos fatos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; não sabe nem pode mais.

IIICiência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois a natureza não se vence, se não quando se lhe obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra na prática.

IV – No trabalho da natureza o homem não pode mais que unir e apartar os corpos. O restante realiza-o a própria natureza, em si mesma.

XCVIII – […] [D]a mesma maneira que na vida política o caráter de cada um, sua secreta disposição de ânimo e sentimentos melhor se patenteiam em ocasiões de perturbação que em outras, assim também os segredos da natureza melhor se revelam quando esta é submetida aos assaltos das artes que quando deixada no seu curso natural.

CXXIX – […] A esta altura, não seria impróprio distinguirem-se três gêneros ou graus de ambição dos homens. O primeiro é o dos que aspiram ampliar seu próprio poder em sua pátria, gênero vulgar a aviltado; o segundo é o dos que ambicionam estender o poder e o domínio de sua pátria para todo o gênero humano, gênero sem dúvida mais digno, mas não menos cúpido. Mas se alguém se dispõe a instaurar e estender o poder e o domínio do gênero humano sobre o universo, a sua ambição (se assim pode ser chamada) seria, sem dúvida, a mais sábia e a mais nobre de todas. Pois bem, o império do homem sobre as coisas se apóia unicamente nas artes e nas ciências. A natureza não se domina, senão obedecendo-lhe.

ARRIMOS PARA O INTELECTO (instrumentos de registro e medida; tabelas)

II – Nem a mão nua nem o intelecto, deixados a si mesmos, logram muito. Todos os feitos se cumprem com instrumentos e recursos auxiliares, de que dependem, em igual medida, tanto o intelecto quanto as mãos. Assim como os instrumentos mecânicos regulam e ampliam o movimento das mãos, os da mente aguçam o intelecto e o precavêm.

CI – Todavia, mesmo quando esteja pronto e preparado o material de história natural e de experiência, na quantidade requerida para a obra do intelecto, ou seja, para a obra da filosofia, nem assim o intelecto estará em condições de trabalhar o referido material espontaneamente e apenas com o auxílio da memória. Seria o mesmo que se tentasse aprender de memória e reter exatamente todos os cálculos de uma tábua astronômica. E até agora, em matéria de invenção, tem sido mais importante o papel da meditação que o da escrita, e a experiência não é ainda literata. Apesar disso, nenhuma forma de invenção é conclusiva senão por escrito. E é de se esperar melhores frutos quando a experiência literata for de uso corrente.

CII – Além disso, sendo tão grande o número dos fatos particulares, quase um exército, e achando-se de tal modo esparsos e difusos que chegam a desagregar e confundir o intelecto, não é de se esperar boa coisa das escaramuças, dos ligeiros movimentos e incursões do intelecto, a não ser que, organizando e coordenando todos os fatos relacionados a um objeto, se utilize de tabelas de invenção idôneas e bem dispostas e como que vivas. Tais tabelas servirão à mente como auxiliares preparados e ordenados.

CXXII – […] [S]e nos acusam de arrogantes, cumpre-nos observar que isso seria verdadeiro de alguém que pretendesse traçar uma linha reta ou um círculo, melhor que algum outro, servindo-se apenas da segurança das mãos e do bom golpe de vista. No caso, haveria uma comparação de capacidade. Mas se alguém afirma poder traçar uma linha mais reta e um círculo mais perfeito servindo-se da régua e do compasso, em comparação a alguém que faça uso apenas das mãos e da vista, esse com certeza não seria um jactancioso. O que ora dizemos não se refere somente aos nossos primeiros esforços e tentativas, mas também aos dos que se seguiram com os mesmos propósitos. Pois o nosso método de descoberta das ciências quase que iguala os engenhos e não deixa muita margem à excelência individual, pois tudo submete a regras rígidas e demonstrações. Eis por que, como já o dissemos muitas vezes, a nossa obra deve ser atribuída mais à sorte que à habilidade, e é mais parto do tempo que do talento. Pois parece não haver dúvidas de que uma espécie de acaso intervém tanto no pensamento dos homens quanto nas obras e nos fatos.

DEUS = NATUREZA = COISAS

XXIII – Não é pequena a diferença existente entre os ídolos da mente humana e as idéias da mente divina, ou seja, entre opiniões inúteis e as verdadeiras marcas e impressões gravadas por Deus nas criaturas. tais como de fato se encontram.

CXXIV – […] Efetivamente construímos no intelecto humano um modelo verdadeiro do mundo, tal qual foi descoberto e não segundo o capricho da razão de fulano ou beltrano. Porém, isso não é possível levar a efeito, sem uma prévia e diligentíssima dissecção e anatomia do mundo. Por isso, decidimos correr com todas essas imagens ineptas e simiescas que a fantasia humana infundiu nos vários sistemas filosóficos. Saibam os homens como já antes dissemos a imensa distância que separa os ídolos da mente humana das idéias da mente divina. Aqueles, de fato, nada mais são que abstrações arbitrárias; estas, ao contrário, são as verdadeiras marcas do Criador sobre as criaturas, gravadas e determinadas sobre a matéria, através de linhas exatas e delicadas. Por conseguinte, as coisas em si mesmas, neste gênero, são verdade e utilidade, e as obras devem ser estimadas mais como garantia da verdade que pelas comodidades que propiciam à vida humana.

ÍDOLOS: da tribo (tradições); da caverna (subjetivos); do foro (políticos); e do teatro (filosóficos)

XXXIX – São de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes assinamos nomes, a saber: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro.

XL – A formação de noções e axiomas pela verdadeira indução é, sem dúvida, o remédio apropriado para afastar e repelir os ídolos.

XLI Os ídolos da tribo estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. E falsa a asserção de que os sentidos do homem são a medida das coisas. Muito ao contrário, todas as percepções, tanto dos sentidos como da mente, guardam analogia com a natureza humana e não com o universo. O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe.

XLII – Os ídolos da caverna são os dos homens enquanto indivíduos. Pois, cada um — além das aberrações próprias da natureza humana em geral — tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões, segundo ocorram em ânimo preocupado e predisposto ou em ânimo equânime e tranqüilo; de tal forma que o espírito humano — tal como se acha disposto em cada um — é coisa vária, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso. Por isso, bem proclamou Heráclito que os homens buscam em seus pequenos mundos e não no grande ou universal.

XLIII – Há também os ídolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si, a que chamamos de ídolos do foro devido ao comércio e consórcio entre os homens. Com efeito, os homens se associam graças ao discurso, e as palavras são cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira imprópria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições, nem as explicações com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o perturbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias.

XLIV – Há, por fim, ídolos que imigraram para o espírito dos homens por meio das diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração. São os ídolos do teatro: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas são outras tantas fábulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fictícios e teatrais. Não nos referimos apenas às que ora existem ou às filosofias e seitas dos antigos. Inúmeras fábulas do mesmo teor se podem reunir e compor, por que as causas dos erros mais diversos são quase sempre as mesmas. Ademais, não pensamos apenas nos sistemas filosóficos, na universalidade, mas também nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vigor, mercê da tradição, da credulidade e da negligência.

PARA UMA NATUREZA DIVINA, UM CIENTISTA INFANTIL (tabula rasa)

LXVIII – Já falamos de todas as espécies de ídolos e de seus aparatos. Por decisão solene e inquebrantável todos devem ser abandonados e abjurados. O intelecto deve ser liberado e expurgado de todos eles, de tal modo que o acesso ao reino do homem, que repousa sobre as ciências, possa parecer-se ao acesso ao reino dos céus, ao qual não se permite entrar senão sob a figura de criança.

EXPERIMENTOS LUCÍFEROS (sem utilidade prática além do aumento das luzes do conhecimento) x EXPERIMENTOS FRUTÍFEROS (que resultam em efeitos práticos para além do mero avanço do conhecimento)

XCIX – Por sua vez, mesmo em meio à abundância dos experimentos mecânicos, há grande escassez dos que mais contribuem e concorrem para informação do intelecto. De fato, o artesão, despreocupado totalmente da busca da verdade, só está atento e apenas estende as mãos para o que diretamente serve a sua obra particular. Por isso, a esperança de um ulterior progresso das ciências estará bem fundamentada quando se recolherem e reunirem na história natural muitos experimentos que em si não encerram qualquer utilidade, mas que são necessários na descoberta das causas e dos axiomas. A esses experimentos costumamos designar por lucíferos, para diferenciá-los dos que chamamos de frutíferos. Aqueles experimentos têm, com efeito, admirável virtude ou condição: a de nunca falhar ou frustrar, pois não se dirigem à realização de qualquer obra, mas à revelação de alguma causa natural. Assim, qualquer que seja o caso, satisfazem esse intento e assim resolvem a questão.

O PARADOXO DA INVENÇÃO: antes dela, ela é inimaginável, e geralmente considerada impossível; depois dela, ela é desprezada como óbvia e evidente.

CIX – Pode-se também acrescentar como argumento de esperança o fato de que muitos dos inventos já logrados são de tal ordem que antes a ninguém foi dado sequer suspeitar da sua possibilidade. Eram, ao contrário, olhados como coisas impossíveis. E tal se deve a que os homens procuram adivinhar as coisas novas a exemplo das antigas e com a imaginação preconcebida e viciada. Mas essa é uma maneira de opinar sumamente falaciosa, pois a maioria das descobertas que derivam das fontes das coisas não flui pelos regatos costumeiros. Assim, por exemplo, se antes da invenção dos canhões alguém, baseado nos seus efeitos, os descrevesse: foi inventada uma máquina que pode, de grande distância, abalar e arrasar as mais poderosas fortificações, os homens então se poriam a cogitar das diferentes e múltiplas formas de se aumentar a força de suas máquinas bélicas pela combinação de pesos e rodas e dispositivos que tais, causadores de embates e impulsos. Mas a ninguém ocorreria, mesmo em imaginação ou fantasia, essa espécie de sopro violento e flamejante que se propaga e explode. A sua volta não divisavam nenhum exemplo de algo semelhante, a não ser o terremoto e o raio, que, como fenômenos naturais de grandes proporções, não imitáveis pelo homem, seriam desde logo rejeitados. Do mesmo modo, se antes da descoberta do fio da seda alguém houvesse falado: há uma espécie de fio para a confecção de vestes e alfaias que supera de longe em delicadeza e resistência e, ainda, em esplendor e suavidade, o linho e a lã, os homens logo se poriam a pensar em alguma planta chinesa, ou no pêlo muito delicado de algum animal, ou na pluma ou penugem das aves; mas ninguém haveria de imaginar o tecido de um pequeno verme tão abundante e que se renova todos os anos. Se alguém se referisse ao verme teria sido objeto de zombaria, como alguém que sonhasse com um novo tipo de teia de aranha. Do mesmo modo, se antes da invenção da bússola alguém houvesse falado ter sido inventado um instrumento com o qual se poderia captar e distinguir com exatidão os pontos cardeais do céu; os homens se teriam lançado, levados pela imaginação, a conjeturar a construção dos mais rebuscados instrumentos astronômicos, e pareceria de todo incrível que se pudesse inventar um instrumento com movimentos coincidentes com os dos céus, sem ser de substância celeste, mas apenas de pedra ou metal. Contudo, tais inventos e outros semelhantes permaneceram ignorados pelos homens por tantos séculos, e não foram descobertos pelas artes, mas graças ao acaso e oportunidade. Por outro lado, são de tal ordem (como já dissemos), são tão heterogêneos e tão distantes do que antes era conhecido que nenhuma noção anterior teria podido conduzir a eles. Desse modo, é de se esperar que há ainda recônditas, no seio da natureza, muitas coisas de grande utilidade, que não guardam qualquer espécie de relação ou paralelismo com as já conhecidas, mas que estão fora das rotas da imaginação. Até agora não foram descobertas. Mas não há dúvida de que no transcurso do tempo e no decorrer dos séculos virão à luz, do mesmo modo que as antes referidas. Mas, seguindo o caminho que estamos apontando, elas podem ser mostradas muito antes do tempo usual, podem ser antecipadas, de forma rápida, repentina e simultaneamente.

CX – […] [O]s homens não foram capazes de notar que, se é mais difícil a disposição dos caracteres tipográficos que escrever as letras à mão, aqueles, uma vez colocados, propiciam um número infinito de cópias, enquanto que as letras à mão só servem para uma escrita. Ou talvez não tenham sido capazes de notar que a tinta poderia ser espessada de forma a tingir sem escorrer (mormente quando se faz a impressão sobre as letras voltadas para cima). Eis por que por tantos séculos não se pôde contar com essa admirável invenção, tão propicia à propagação do saber. Mas a mente humana, no curso dos descobrimentos, tem estado tão desastrada e mal dirigida que primeiro desconfia de si mesma e depois se despreza. Primeiro lhe parece impossível certo invento; depois de realizado, considera incrível que os homens não o tenham feito há mais tempo. É isso mesmo que reforça os nossos motivos de esperança, pois subsiste ainda um sem-número de descobrimentos a serem feitos, que podem ser alcançados através da já mencionada experiência literata, não só para se descobrirem operações desconhecidas, como também para transferir, juntar e aplicar as já conhecidas.

CXXX – […] [N]ós, que consideramos a mente não meramente pelas faculdades que lhe são próprias, mas na sua conexão com as coisas, devemos presumir que a arte da invenção robustecer-se-á com as próprias descobertas.

A noção de estrutura em etnologia (Lévi-Strauss 1952)

LÉVI-STRAUSS, Claude. 2012. XV. A noção de estrutura em etnologia; XVI. Pósfácio ao Capítulo XV. In: Antropologia Estrutural (Trad.: Beatriz Perrone-Moisés) São Paulo: CosacNaify, pp.397-487. [1952; 1956]

XV. A noção de estrutura em etnologia (1952)
ROUSSEAU (meta)FÍSICO SOCIAL

As investigações que podem ser feitas a esse respeito não devem ser tomadas por verdades históricas, mas apenas por raciocínios hipotéticos e condicionais, mais apropriados para esclarecer a natureza das coisas do que para mostrar sua verdadeira origem, e semelhantes ao que costumam fazer os físicos acerca da formação do mundo. (J.-J. Rousseau, Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens). (Lévi-Strauss 2012:397)

“ESTRUTURA” E “CIÊNCIA”

[Q]uando falamos de estrutura social, consideramos sobretudo os aspectos formais dos fenômenos sociais, de modo que saí- mos do âmbito da descrição para considerar noções e categorias que não pertencem propriamente à etnologia, mas que ela gostaria de utilizar, a exemplo de outras disciplinas científicas que, já há tempos, tratam alguns de seus problemas como desejaríamos tratar dos nossos. Tais problemas diferem, sem dúvida, quanto ao conteúdo, mas parece-nos – talvez tenhamos razão, talvez não – que nossos próprios problemas poderiam ser-lhes aproximados, contanto que adotemos o mesmo tipo de formalização. O interesse das pesquisas estruturais reside, precisamente, no fato de nos darem a esperança de que ciências mais avançadas do que a nossa nesse aspecto possam nos fornecer modelos de métodos e soluções. (Lévi-Strauss 2012:397-8)

ESTRUTURA (modelo formal) =/= RELAÇÕES (realidade empírica)

O princípio fundamental é que a noção de estrutura social não remete à realidade empírica, e sim aos modelos construídos a partir dela. Fica assim aparente a diferença entre duas noções tão próximas que muitas vezes foram confundidas, isto é, estrutura social e relações sociais. As relações sociais são a matéria-prima empregada para a construção de modelos que tornam manifesta a própria estrutura social, que jamais pode, portanto, ser reduzida ao conjunto das relações sociais observáveis em cada sociedade. (Lévi-Strauss 2012:400)

As investigações estruturais não apresentariam nenhum interesse se as estruturas não fossem traduzíveis em modelos cujas propriedades formais sejam comparáveis, independentemente dos elementos que os compõem. A tarefa do estruturalista é identificar e isolar os níveis de realidade que possuem um valor estratégico a partir da perspectiva em que ele se coloca, isto é, que podem ser representados na forma de modelos, qualquer que seja a natureza destes últimos. (Lévi-Strauss 2012:407)

AS 4 CONDIÇÕES DA ESTRUTURA (com menção a Von Newmann)

Consideramos que, para merecerem o nome de estrutura, modelos devem exclusivamente satisfazer a quatro condições. […] Em primeiro lugar, uma estrutura apresenta um caráter de sistema. Consiste em elementos tais que uma modificação de qualquer um deles acarreta uma modificação de todos os demais. […] Em segundo lugar, todos os modelos pertencem a um grupo de transformações, cada uma das quais correspondendo a um modelo da mesma família, de modo que o conjunto dessas transformações constitui um grupo de modelos. […] Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima permitem prever de que modo reagirá o modelo em caso de modificação de um de seus elementos. […] Finalmente, o modelo deve ser de tal modo construído que seu funcionamento possa dar conta de todos os fatos observados. (Lévi-Strauss 2012:400-1)

OBSERVAÇÃO (relações, realidade concreta) =/= EXPERIMENTAÇÃO (estrutura, modelos formais)

Há que distinguir sempre esses dois níveis. A observação dos fatos e a elaboração de métodos que permitam utilizá-los para construir modelos jamais devem ser confundidas com a experimentação por intermédio dos próprios modelos. […] [N]ão há contradição, mas sim íntima correlação, entre a preocupação com o detalhe concreto, própria da investigação etnográfica, e a validade e generalidade que reivindicamos para o modelo construído a partir dela. (Lévi-Strauss 2012:401-2)

No nível da observação, a regra principal – a única, poder-se-ia dizer – é que todos os fatos devem ser precisamente observados e descritos, sem permitir que pressupostos teóricos lhes alterem a natureza ou importância. Essa regra implica uma outra, como decorrência: os fatos devem ser estudados em si mesmos (por quais processos concretos vieram a existir?) e também em relação ao conjunto (o que quer dizer que qualquer mudança observada num ponto será remetida às circunstâncias globais de seu surgimento). (Lévi-Strauss 2012:402)

Entendo por “experimentação com os modelos” o conjunto de procedimentos capazes de permitir saber como um dado modelo reage a modificações, ou comparar uns aos outros modelos de mesmo tipo ou de tipos diferentes. […] Na verdade, são concebíveis muitos modelos, diferentes, porém cômodos em vários aspectos para descrever e explicar um grupo de fenômenos. Contudo, o melhor sempre será o modelo verdadeiro, isto é, aquele que, sendo o mais simples, satisfaça a dupla condição de utilizar única e exclusivamente os fatos considerados e de explicá-los todos. (Lévi-Strauss 2012:401-2)

ESTRUTURAS CONSCIENTES (aparente) x ESTRUTURAS INCONSCIENTES (profundas)

Modelos podem ser conscientes ou inconscientes, dependendo do nível em que funcionam. […] Qualquer modelo pode ser consciente ou inconsciente, essa condição não afeta sua natureza. […] Boas […] mostrou que quanto menos a sociedade em que um grupo de fenômenos ocorre dispuser de um modelo consciente para interpretá-lo ou justificá-lo, mais este se prestará à análise estrutural […]. [U]ma estrutura próxima da superfície do inconsciente torna mais provável a existência de um modelo que a encubra, como uma tela, para a consciência coletiva. […] [O]s modelos conscientes – geralmente chamados de “normas” – estão entre os mais pobres de todos, em razão de sua função, que é perpetuar crenças e costumes, em vez de expor os mecanismos destes. A análise estrutural se depara, por isso, com uma situação paradoxal, bem conhecida pelos lingüistas: quanto mais clara for a estrutura aparente, mais difícil será captar a estrutura profunda, devido aos modelos conscientes e deformados que se interpõem como obstáculos entre o observador e seu objeto. (Lévi-Strauss 2012:403-4)

Pode ser que [o etnólogo] tenha de construir um modelo correspondente a fenômenos cujo caráter de sistema não foi percebido pela sociedade que estuda. É a situação mais simples e aquela que […] propicia o terreno mais favorável para a investigação etnológica. Contudo, em outros casos, o etnólogo não só tem de lidar com material bruto, mas também com modelos já construídos pela cultura considerada, na forma de interpretações. […] Muitas culturas chamadas primitivas elaboraram modelos – de suas regras de casamento, por exemplo – melhores do que os dos etnólogos profissionais. Existem, portanto, duas razões para respeitar esses modelos “caseiros”. Primeiro, eles podem ser bons ou pelo menos fornecer uma via de acesso à estrutura; cada cultura possui seus próprios teóricos, cuja obra merece a mesma atenção que o etnólogo dedica à de seus colegas. Além disso, ainda que os modelos sejam tendenciosos e inexatos, a tendência e o tipo de erro que contêm fazem parte dos fatos a serem estudados; talvez estejam inclusive entre os mais significativos. No entanto, ao dar toda a atenção a esses modelos produzidos pela cultura indígena, o etnólogo nunca deve esquecer que normas culturais não são automaticamente estruturas. São, antes, peças importantes para ajudar a descobrir estruturas; documentos brutos, ou contribuições teóricas, comparáveis às que são feitas pelo próprio etnólogo. (Lévi-Strauss 2012:404-5)

ESTRUTURA =/= MEDIDA

[N]ão existe nenhuma conexão necessária entre a noção de medida e a de estrutura. As pesquisas estruturais surgiram nas ciências sociais como conseqüência indireta de certos desenvolvimentos da matemática moderna, que vem dando cada vez mais importância aos dados qualitativos, afastando-se, assim, da perspectiva quantitativa da matemática tradicional. Em várias áreas, como a lógica matemática, a teoria dos conjuntos, a teoria dos grupos e a topologia, percebeu-se que problemas que não permitiam uma solução métrica podiam, mesmo assim, ser submetidos a um tratamento rigoroso. (Lévi-Strauss 2012:406)

MODELOS MECÂNICOS (mesma escala do fenômeno) =/= MODELOS ESTATÍSTICOS (outra escala)

Um modelo cujos elementos constitutivos estejam na escala dos fenômenos será chamado de “modelo mecânico”, e “modelo estatístico” será aquele cujos elementos estão numa escala diferente. (Lévi-Strauss 2012:406)

Pensemos, por exemplo, no suicídio, que pode ser considerado a partir de duas perspectivas diferentes. A análise dos casos individuais permite construir o que chamaríamos de modelos mecânicos do suicídio, cujos elementos são fornecidos pelo tipo de personalidade da vítima, sua história individual, as propriedades dos grupos primário e secundário a que pertenceu, e assim por diante. Mas pode-se igualmente construir modelos estatísticos, baseados na freqüência dos suicídios durante um determinado período, em uma ou várias sociedades, ou ainda em grupos primários e secundários de tipos diferentes etc. Qualquer que seja a perspectiva adotada, terão sido isolados níveis nos quais o estudo estrutural do suicídio é significativo, ou, em outras palavras, que autorizam a construção de modelos passíveis de comparação: primeiro, para várias formas de suicídio; segundo, para sociedades diferentes; e terceiro para diversos tipos de fenômenos sociais. Portanto, o progresso científico não consiste apenas na descoberta de constantes características para cada nível, mas também no isolamento de níveis ainda não localizados, nos quais o estudo de determinado fenômeno mantém um valor estratégico. (Lévi-Strauss 2012:408)

A opção é sempre a mesma, estudar a fundo um caso, e a única diferença está no recorte do “caso”, cujos elementos constitutivos estarão (dependendo do padrão adotado) na escala do modelo projetado ou numa escala diferente. (Lévi-Strauss 2012:414)

SISTEMA DE REFERÊNCIA (espaço e tempo)

Ora, é impossível conceber as relações sociais fora de um meio comum que lhes serve de sistema de referência. O espaço e o tempo são os dois sistemas de referência que permitem pensar as relações sociais, em conjunto ou separadamente. (Lévi-Strauss 2012:415)

O tempo e o espaço social também devem ser distinguidos por sua escala. Etnólogos utilizam “macrotempo” e “microtempo”, “macroespaço” e “microespaço”. Com plena legitimidade, os estudos estruturais tomam suas categorias emprestadas tanto da pré-história, da arqueologia e da teoria difusionista, como da topologia psicológica fundada por Lewin e da sociometria de Moreno. (Lévi-Strauss 2012:416-7)

Temos, portanto, meios de estudar os fenômenos sociais e mentais a partir de suas manifestações objetivas, numa forma exteriorizada e – poder-se-ia dizer – cristalizada. E isso não apenas nos casos de configurações espaciais estáveis. Configurações instáveis, mas recorrentes, podem ser analisadas e criticadas do mesmo modo – as que se pode observar na dança e no ritual, por exemplo. (Lévi-Strauss 2012:420)

CULTURA

Chamamos de cultura todo conjunto etnográfico que, do ponto de vista da pesquisa, apresenta afastamentos significativos em relação a outros. Se buscarmos determinar os afastamentos significativos entre a América do Norte e a Europa, tratá-las-emos como culturas diferentes, mas se, suponhamos, o interesse forem os afastamentos significativos entre Paris e Marselha, por exemplo, esses dois conjuntos urbanos poderão ser provisoriamente constituídos como duas unidades culturais. Como o objeto último das pesquisas estruturais são as constantes ligadas a tais afastamentos, percebe- se que a noção de cultura pode corresponder a uma realidade objetiva, sem deixar de ser função do tipo de pesquisa em questão. Uma coleção de indivíduos, contanto que seja objetivamente dada no tempo e no espaço, remete simultaneamente a vários sistemas de cultura: universal, continental, nacional, provincial, local etc., e familiar, profissional, confessional, político etc. […] Contudo, na prática, esse nominalismo não deve ser levado ao extremo. Na verdade, o termo cultura é empregado para reunir um conjunto de afastamentos significativos cujos limites, conforme prova a experiência, coincidem aproximadamente. O fato de tal coincidência nunca ser absoluta e de jamais ocorrer em todos os níveis ao mesmo tempo não deve nos impedir de utilizar a noção de cultura, que é fundamental em etnologia, e possui o mesmo valor heurístico que a de isolado em demografia. Do ponto de vista lógico, as duas noções são do mesmo tipo. Aliás, os próprios físicos nos encorajam a conservar a noção de cultura, já que N. Bohr escreve: “As diferenças tradicionais (das culturas humanas) se assemelham, em vários aspectos, aos modos diversos, mas equivalentes, como se pode descrever uma experiência em física” (1939:9). (Lévi-Strauss 2012:424-5)

OS 4 TIPOS DE ESTRUTURAS DE COMUNICAÇÃO (mulheres, bens e serviços, mensagens, genes)

Uma sociedade é feita de indivíduos e de grupos que se comunicam entre si. Contudo, a presença ou ausência de comunicação não pode ser definida de maneira absoluta. A comunicação não cessa nos limites da sociedade. Em vez de fronteiras rígidas, trata-se, antes, de limiares, marcados por um enfraquecimento ou uma deformação da comunicação, nos quais ela não desaparece, mas atinge seu nível mínimo. Essa situação é suficientemente significativa para que a população (tanto fora como dentro) dela tome consciência. […] Em qualquer sociedade, a comunicação se opera no mínimo em três níveis: comunicação de mulheres, comunicação de bens e serviços e comunicação de mensagens. Conseqüentemente, o estudo do sistema de parentesco, o do sistema econômico e o do sistema lingüístico apresentam certas analogias. Aos três se aplica o mesmo método, e eles diferem apenas quanto ao nível estratégico em que cada um se situa no seio de um universo comum. Poder-se-ia acrescentar que as regras de parentesco e de casamento definem um quarto tipo de comunicação, o dos genes entre os fenótipos. A cultura não consiste, portanto, exclusivamente em formas de comunicação que lhe são próprias (como a linguagem), mas também – e talvez sobretudo – em regras aplicáveis a todos os tipos de “comunicação”, quer esta se efetue no plano da natureza ou no da cultura. (Lévi-Strauss 2012:425-6)

Se nos é permitido esperar que um dia a antropologia social, a ciência econômica e a lingüística se associem para fundar uma disciplina comum, que seria a ciência da comunicação, reconheçamos desde já que ela consistirá sobretudo em regras. Tais regras são independentes da natureza dos participantes (indivíduos ou grupos) cujo jogo regem. […] Desse ponto de vista, a natureza dos jogadores é irrelevante, o importante é saber quando um jogador pode escolher e quando não pode. (Lévi-Strauss 2012:429-30)

Introduzimos, assim, nos estudos relativos ao parentesco e ao casamento, concepções derivadas da teoria da comunicação. A “informação” de um sistema de casamento é função do número de alternativas de que dispõe o observador para definir o status matrimonial (isto é, de cônjuge possível, proibido ou designado) de um indivíduo qualquer em relação a um determinado pretendente. […] Inversamente, as regras de casamento constituem a redundância do sistema considerado. Poder-se-ia igualmente calcular a porcentagem das escolhas “livres” (não de modo absoluto, mas em relação a certas condições postuladas por hipótese) que ocorrem numa determinada população matrimonial, e atribuir um valor numérico à sua “entropia”, relativa e absoluta. […] Com isso, abre-se uma nova possibilidade, a de converter modelos estatísticos em modelos mecânicos e vice-versa. (Lévi-Strauss 2012:430)

A MÁQUINA SOCIAL (sistema) DO PARENTESCO NÃO ESGOTA A ESTRUTURA SOCIAL

Para o autor destas linhas, os sistemas de parentesco, as regras de casamento e as de filiação formam um conjunto coordenado, cuja função é garantir a permanência do grupo social, entrecruzando, como num tecido, as relações consangüíneas e as fundadas na aliança. Esperamos ter assim contribuído para elucidar o funcionamento da máquina social, que extrai perpetuamente as mulheres de suas famílias consangüíneas para redistribuí-las por outros grupos domésticos, que por sua vez se transformam em famílias consangüíneas, e assim sucessivamente. […] Na ausência de influências externas, essa máquina funcionaria indefinidamente, e a estrutura social conservaria um caráter estático. Mas não é isso que ocorre. Devemos, conseqüentemente, […] explicar as transformações diacrônicas da estrutura e, ao mesmo tempo, as razões pelas quais uma estrutura social jamais se reduz a um sistema de parentesco. (Lévi-Strauss 2012:445-6)

TRANSITIVIDADE, ORDEM e CICLO

[S]ão introduzidas em nossos estudos noções como as de transitividade, ordem e ciclo, passíveis de tratamento formal e que permitem a análise de tipos generalizados de estruturas sociais em que os níveis de comunicação e de subordinação podem estar integrados. Talvez se possa ir ainda mais longe, até a integração das ordens, atuais ou virtuais. Na maioria das sociedades humanas, o que chamamos de “ordem social” pertence a um tipo transitivo e não cíclico: se A é superior a B e B superior a C, A deve ser superior a C e C não pode ser superior a A. No entanto, as próprias sociedades que obedecem a tais regras em termos práticos concebem outros tipos de ordem, que poderíamos chamar “virtuais” ou “ideais”, quer no plano da política, no do mito ou no da religião, e essas ordens são por vezes intransitivas e cíclicas. Pensemos nos contos de reis que desposam camponesas, ou na crítica feita por Stendhal da democracia americana, em que um gentleman obedece às ordens de seu merceeiro. (Lévi-Strauss 2012:451-2)

DIFERENTES TIPOS DE ESTRUTURA-ORDEM (parentesco, organização social, estratificação econômica)

Para o etnólogo, a sociedade envolve um conjunto de estruturas que correspondem a diversos tipos de ordem. O sistema de parentesco fornece um meio de ordenar os indivíduos segundo certas regras, a organização social fornece outro, as estratificações sociais ou econômicas, um terceiro. Todas essas estruturas de ordem podem ser elas mesmas ordenadas, contanto que se percebam as relações que as unem e de que modo elas agem umas sobre as outras do ponto de vista sincrônico. (Lévi-Strauss 2012:452)

ORDENS VIVIDAS =/= ORDENS CONCEBIDAS

[A]té agora, consideramos apenas ordens “vividas”, isto é, ordens que são elas mesmas função de uma realidade objetiva, e que se pode abordar do exterior, independentemente da representação que dela têm os homens. Observaremos agora que tais ordens “vividas” sempre supõem outras, que é indispensável levar em consideração para compreender não apenas aquelas, como também o modo como cada sociedade tenta integrá-las num todo ordenado. Essas estruturas de ordem “concebidas”, e não mais “vividas”, não correspondem diretamente a nenhuma realidade objetiva. À diferença daquelas, não são passíveis de controle experimental, já que chegam a invocar uma experiência específica com a qual, aliás, às vezes se confundem. O único controle a que podemos submetê-las, para analisá-las, é portanto o das ordens do primeiro tipo, ou ordens “vividas”. As ordens “concebidas” correspondem ao âmbito do mito e da religião. Podemos nos perguntar se a ideologia política das sociedades contemporâneas não pertenceria também a essa categoria. (Lévi-Strauss 2012:452-3)

MODELOS ANTROPOLÓGICOS: COMUNICAÇÃO entre MECÂNICA e ESTATÍSTICA

A antropologia, em busca de modelos, se encontra numa situação intermediária [entre modelos mecânicos e estatísticos]: os objetos a que nos dedicamos – papéis sociais e indivíduos integrados numa dada sociedade – são muito mais numerosos do que os da mecânica newtoniana, mas não o suficiente para uma análise estatística e de cálculo de probabilidades. Encontramo-nos, assim, em terreno híbrido e ambíguo; nossos fatos são complicados demais para serem tratados de um modo, mas não o bastante para que se possa tratá-los do outro. […] As novas perspectivas abertas pela teoria da comunicação resultam, justamente, dos métodos originais que foi preciso elaborar para tratar de objetos – os signos – que podem então ser submetidos a uma análise rigorosa, embora seu número seja elevado demais para a mecânica clássica e ao mesmo tempo reduzido demais para que os princípios da termodinâmica lhes sejam aplicáveis. (Lévi-Strauss 2012:455-6)

O atual estado das pesquisas estruturais em antropologia é, portanto, o seguinte. Conseguimos isolar fenômenos que são do mesmo tipo dos que as teorias da estratégia e da comunicação já permitem estudar de modo rigoroso. Os fatos antropológicos se encontram numa escala suficientemente próxima da desses outros fenômenos para justificar a esperança de um tratamento análogo. […] Ajustar as técnicas de observação a um quadro teórico muito mais avançado do que elas, eis uma situação paradoxal, que a história das ciências ilustra raramente. Cabe à antropologia moderna aceitar esse desafio. (Lévi-Strauss 2012:456-7)

XVI. Posfácio ao capítulo XV
ETNOLOGIA como CIÊNCIA RESIDUAL (busca afastamentos diferenciais entre estruturas onde elas normalmente não eram esperadas)

Nenhum de nós [etnólogos] jamais sonhou em substituir por um tipo ou uma estrutura fixa essa realidade palpitante. A busca de estruturas intervém num segundo estágio, quando, depois de termos observado o que existe, tentamos extrair daí os únicos elementos estáveis – e sempre parciais – que permitem comparar e classificar. […] [N]ão partimos de uma definição a priori do que é estruturável e do que não o é. Temos plena consciência da impossibilidade de saber de antemão onde e em que nível de observação a análise estrutural pode ser aplicada. Nossa experiência do concreto ensinou-nos que, muito freqüentemente, são os aspectos mais fluidos, os mais fugidios, da cultura que dão acesso a uma estrutura; daí a atenção apaixonada, quase maníaca, que damos aos detalhes. Mantemos sempre em mente o exemplo das ciências naturais, cujo progresso de uma estrutura a outra (sempre mais inclusiva e mais explicativa do que a primeira) sempre consistiu em descobrir uma estruturação melhor por meio de fatos mínimos, que as hipóteses anteriores tinham deixado de lado por considerarem-nos “a-estruturais”. Um exemplo disso são as anomalias do periélio de Mercúrio, “a-estruturais” no sistema de Newton, que serviriam de base para a descoberta de uma estrutura melhor pela teoria da relatividade. A etnologia, ciência residual por excelência, já que a parte que lhe cabe é o “resíduo” de sociedades que as ciências humanas tradicionais não tinham se dignado a tratar (justamente porque as consideravam “a-estruturais”), só pode, por vocação própria, utilizar o método dos resíduos. […] Mas sabemos que uma sociedade concreta jamais se reduz a sua, ou melhor, a suas estruturas (pois há várias delas, em diferentes níveis, e essas diversas estruturas se encontram elas mesmas, ao menos parcialmente, “em estrutura”). Como eu escrevia em 1949, criticando essa forma primária do estruturalismo que é chamada de funcionalismo: “Dizer que uma sociedade funciona é um truísmo; mas dizer que tudo, numa sociedade, funciona é um absurdo” […] Na verdade, nosso objetivo último não é tanto saber o que são, cada uma em si mesma, as sociedades que constituem nosso objeto de estudo, e mais descobrir como elas diferem umas das outras. Como em lingüística, são esses afastamentos diferenciais que constituem o objeto próprio da etnologia. (Lévi-Strauss 2012:463-4)

D’ARCY THOMPSON sobre MORFOLOGIA

Acontece freqüentemente, em morfologia, de a tarefa principal consistir em comparar formas vizinhas, mais do que definir precisamente cada uma delas; e as deformações de uma figura complicada podem ser um fenômeno fácil de compreender, ainda que a figura em si deva permanecer não analisada e não definida (D’Arcy Wentworth Thompson 1952, v. ii: 1032). (Lévi-Strauss 2012:465)

NOÇÃO DE ESTRUTURA surge da NECESSIDADE de COORDENAR ESFORÇOS ISOLADOS

Parece-me […] digno de nota que vários etnólogos tenham-se voltado, de modo independente, para a noção de estrutura, durante os anos de guerra em que as circunstâncias nos condenavam a um certo isolamento. A convergência mostra o quanto essa noção era indispensável para resolver problemas enfrentados por nossos predecessores. Ela fornece a nossos procedimentos compartilhados um pressuposto de validade, para além das diferenças que nos distinguem em outros pontos. (Lévi-Strauss 2012:465)

ORDEM DAS ORDENS (sistemas de transformação e materialismo dialético)

A ordem das ordens não é uma recapitulação dos fenômenos submetidos à análise. É a expressão mais abstrata das inter-relações entre os níveis em que a análise estrutural pode ser realizada, tanto que as fórmulas chegam a ser as mesmas para sociedades histórica e geograficamente afastadas; um pouco, se me permitem a comparação, como moléculas que, apesar de possuírem composições químicas diferentes, umas simples, outras complicadas, pudessem ter ambas uma estrutura “reta” ou uma estrutura “invertida”. Assim, entendo por ordem das ordens as propriedades formais do conjunto composto por subconjuntos, dos quais cada um corresponde a um nível estrutural dado. […] Como diz Jean Pouillon, […] trata-se de saber se é possível elaborar “um sistema de diferenças que não conduza nem à sua mera justaposição nem a seu apagamento artificial” (1956: 155). (Lévi-Strauss 2012:474-5)

Não postulo uma espécie de harmonia pré-estabelecida entre os diversos níveis de estrutura. Eles podem perfeitamente estar – e muitas vezes estão – em contradição uns com os outros, mas as modalidades segundo as quais se contradizem pertencem todas ao mesmo grupo. É exatamente isso, aliás, o que mostra o materialismo histórico, quando afirma que é sempre possível passar, por transformação, da estrutura econômica ou da das relações sociais para a estrutura do direito, da arte, ou da religião. Mas Marx jamais pretendeu que tais transformações fossem de um único tipo, que a ideologia, por exemplo, só pudesse refletir as relações sociais, como um espelho. Segundo ele, essas transformações são dialéticas e, em alguns casos, ele enfrenta dificuldades para encontrar a transformação indispensável que parecia inicialmente refratária à análise. […] Se admitirmos, na própria linha de pensamento de Marx, que as infra-estruturas e as superestruturas comportam múltiplos níveis, e que há vários tipos de transformação para passar de um nível a outro, será também concebível a possibilidade, em última análise e abstraindo-se os conteúdos, de caracterizar diversos tipos de sociedade por leis de transformação: fórmulas indicando o número, a potência, o sentido e a ordem das torções que seria preciso anular, por assim dizer, para reencontrar uma relação de homologia ideal (logicamente, não moralmente) entre os diversos níveis estruturados. […] Pois essa redução é, ao mesmo tempo, uma crítica. Ao substituir um modelo complexo por um modelo simples dotado de melhor rendimento lógico, o antropólogo desvela os rodeios e artifícios, conscientes e inconscientes, a que cada sociedade recorre para tentar resolver as contradições que lhe são inerentes ou, pelo menos, dissimulá-las. (Lévi-Strauss 2012:475-6)

O associativismo da “física social” de Comte

FÍSICA SOCIAL
“Todos os seres vivos apresentam duas ordens de fenômenos essencialmente distintos, os relativos ao indivíduo e os concernentes à espécie, sobretudo quando esta é sociável. É principalmente em relação ao homem que esta distinção é fundamental. A última ordem de fenômenos é evidentemente mais complicada e mais particular do que a primeira, depende dela sem a influenciar. Daí duas grandes seções da física orgânica: a fisiologia propriamente dita e a física social, fundada na primeira. […] Em todos os fenômenos sociais observa-se, primeiramente, a influência das leis fisiológicas do indivíduo e, ademais, alguma coisa de particular que modifica seus efeitos e que provém da ação dos indivíduos uns sobre os outros, algo que se complica particularmente na espécie humana por causa da ação de cada geração sobre aquela que lhe segue. É, pois, evidente que, para estudar convenientemente os fenômenos sociais, é preciso partir de início do conhecimento aprofundado das leis relativas à vida individual. Por outro lado, essa subordinação necessária dos dois estudos não prescreve, de modo algum, como certos fisiologistas de primeira ordem foram levados a crer, a necessidade de ver na física social simples apêndice da fisiologia. A despeito de os fenômenos serem por certo homogêneos, não são idênticos, e a separação das duas ciências é duma importância verdadeiramente fundamental. Pois seria impossível tratar o estudo coletivo da espécie como pura dedução do estudo do indivíduo, porquanto as condições sociais, que modificam a ação das leis fisiológicas, constituem precisamente a consideração mais essencial. Assim, a física social deve fundar-se num corpo de observações diretas que lhe seja próprio, atentando, como convém, para sua íntima relação necessária com a fisiologia propriamente dita. […] Como resultado dessa discussão, a filosofia positiva se encontra, pois, naturalmente dividida em cinco ciências fundamentais, cuja sucessão é determinada pela subordinação necessária e invariável, fundada, independentemente de toda opinião hipotética, na simples comparação aprofundada dos fenômenos correspondentes: a astronomia, a física, a química, a fisiologia e, enfim, a física social. A primeira considera os fenômenos mais gerais, mais simples, mas abstratos e mais afastados da humanidade, e que influenciam todos os outros sem serem influenciados por estes. Os fenômenos considerados pela última são, ao contrário, os mais particulares, mais complicados, mais concretos e mais diretamente interessantes para o homem; dependem, mais ou menos, de todos os precedentes, sem exercer sobre eles influência alguma. Entre esses extremos, os graus de especialidade, de complicação e de personalidade dos fenômenos vão gradualmente aumentando, assim como sua dependência sucessiva. Tal é a íntima relação geral que a verdadeira observação filosófica, convenientemente empregada, ao contrário de vãs distinções arbitrárias, nos conduz a estabelecer entre as diversas ciências fundamentais.” (Comte, “Curso de Filosofia Positiva”, pp.38-9)

AS TRÊS ASSOCIAÇÕES HUMANAS (família-amor; cidade-progresso;
igreja-ordem)

“Todo organismo coletivo oferece necessariamente os diversos elementos essenciais que acabo de vos explicar [i.e.: amor, progresso e ordem]. Mas eles se acham aí mais ou menos pronunciados, e, portanto, distintos, segundo a natureza e a extensão da sociedade correspondente. O predomínio respectivo de cada um deles conduz a reconhecer três associações diferentes, que cumpre classificar segundo a intimidade decrescente e a extensão crescente delas. A do meio assenta na precedente e serve de base à seguinte. Única fundada naturalmente no amor, a Família é a sociedade mais íntima e mais restrita, elemento necessário das outras duas. A atividade constitui em seguida a Cidade ou Pátria, em que o laço resulta sobretudo de uma cooperação habitual, que não poderia ser assaz sentida se esta associação política combinasse um número excessivo de associações domésticas. Vem, enfim, a Igreja, a qual, ligando-nos essencialmente pela fé, é a única que comporta uma verdadeira universalidade, que a religião positiva há de necessariamente realizar. Estas três sociedades humanas têm por centros respectivos a mulher, o patriciado e o sacerdócio. […] A família de que cada qual provém pertence a uma cidade qualquer, e mesmo a uma certa igreja. Mas este último laço sendo mais fraco comporta mais variações, se bem que não sejam nunca arbitrárias. Quando ele se torna bastante consistente, é o único que fornece o meio de reduzir convenientemente a cidade, em torno da qual as existências se concentram ordinariamente, em virtude do predomínio natural da atividade sobre a inteligência e mesmo sobre o sentimento. De fato, o estado social não pode ser verdadeiramente duradouro senão conciliando assaz a independência com o concurso, condições igualmente inerentes à verdadeira noção da Humanidade. Ora, este acordo necessário impõe às sociedades políticas limites de extensão muito inferiores aos que hoje prevalecem. […] Na Idade Média, a separação esboçada entre a associação religiosa e a associação civil já permitiu substituir a livre incorporação dos povos ocidentais à incorporação forçada que lhes proporcionara a princípio o domínio romano. O Ocidente ofereceu, assim, durante muitos séculos, o admirável espetáculo de uma união sempre voluntária, fundada unicamente numa fé comum e mantida por um mesmo sacerdócio, entre nações cujos diversos governos tinham toda a devida independência. Porém esse grande resultado político não podia sobreviver à emancipação prematura de um poder que só à religião positiva compete convenientemente instituir e libertar irrevogavelmente. O declínio necessário do catolicismo restabeleceu a concentração temporal, que se tornou então indispensável para impedir a inteira deslocação política a que se era impelido pela dissolução crescente dos laços religiosos. É assim que, apesar dos costumes da Idade Média, cujos vestígios são ainda sensíveis, os ocidentais deixaram que por toda parte se formassem Estados vastos demais. […] Os motivos políticos dessa extensão exorbitante tendo já cessado suficientemente, começam-se a sentir, mesmo na França, os perigos radicais, e também o próximo termo, de semelhante anomalia. Mas a religião positiva reduzirá em breve estas monstruosas associações à extensão normal que dispensará o emprego da violência para manter a união temporal entre nações suscetíveis apenas de laços espirituais. Tal será a próxima aplicação do princípio estático que erige em órgão político do Grande Ser a simples cidade, completada pelas populações menos condensadas que a ela estiverem ligadas livremente. O sentimento patriótico, hoje tão vago e tão fraco por causa de sua difusão exagerada, poderá desde então desenvolver dignamente toda a energia que comporta esta concentração cívica. Mas a união habitual das grandes cidades se tornará mais real e eficaz tomando o caráter normal de um concurso voluntário. A fé positiva fará convenientemente sentir a solidariedade e também a continuidade, que devem finalmente reinar entre todas as regiões quaisquer do planeta humano.” (Comte, Catecismo Positivista, pp.224)

OS DOIS PODERES (político e religioso)
“[C]onsideremos estaticamente o regime humano. Estudai nele a existência em vez do movimento, e chegareis logo à divisão dos dois poderes, como base universal da ordem social, partindo unicamente do princípio da cooperação, sobre o qual Aristóteles fundou a verdadeira teoria da associação cívica oriunda do concurso das famílias. Com efeito, cada servidor da Humanidade deve sempre ser apreciado sob dois aspectos distintos, embora simultâneos, primeiro, em relação ao seu ofício especial, depois, quanto à harmonia geral. O primeiro dever de todo órgão social consiste, sem dúvida, em bem preencher sua própria função. Mas a boa ordem exige também que cada um assista, tanto quanto possível, à realização dos outros ofícios quaisquer. Semelhante atributo torna-se mesmo o caráter principal do organismo coletivo, em virtude da natureza inteligente e livre de todos os seus agentes. […] Ora, existe espontaneamente uma oposição cada vez mais pronunciada entre estes dois ofícios, um especial, outro geral, de cada funcionário humano. Porquanto, o primeiro, particularizando-se mais à medida que a cooperação se desenvolve, suscita disposições intelectuais, e mesmo tendências morais, que o afastam cada vez mais de uma apreciação de conjunto, que também se vai tornando cada vez mais difícil. Tal é o verdadeiro ponto de vista elementar da teoria geral do governo, primeiro temporal, depois espiritual. […] Como nenhuma função, mesmo vital, e sobretudo social, pode ser bem preenchida senão por meio de um órgão próprio, o mínimo concurso humano exige, pois, uma força especialmente destinada a chamar de novo às vistas e aos sentimentos de conjunto agentes que tendem sempre a desviar-se de tais condições. Ela deve sem cessar conter as suas divergências e desenvolver as suas convergências. Por outro lado, este poder indispensável surge naturalmente das desigualdades que sempre suscita a evolução humana. […] Apesar da íntima simpatia que constitui a simples associação doméstica, mesmo reduzida ao par fundamental, não está ela nunca isenta de semelhante necessidade. É aí que se pode apreciar melhor este grande axioma: Não existe sociedade sem governo. […] Na ordem cívica, cada concurso de famílias para um fim determinado faz em breve surgir um chefe prático, cuja autoridade se acha espontaneamente limitada pelo conjunto das operações que ele pode realmente dirigir, quer pela sua própria aptidão, quer, sobretudo, em virtude de seus capitais. É aí que reside o verdadeiro poder temporal, igualmente capaz de impulsionar e de reter, conforme as necessidades. Todo poder mais vasto dimana necessariamente de uma fonte espiritual. Os diferentes chefes práticos tendem, contudo, a se coordenar entre si, mediante uma hierarquia nascida das relações naturais de seus diversos trabalhos. Este concurso espontâneo institui, pois, uma espécie de governo mais geral, porém sempre reduzido ao seu poder material, mais adequado a resistir que a dirigir. Seus diferentes membros são ordinariamente incapazes de abarcar o conjunto correspondente, apesar da competência de cada um deles em relação a um dos sistemas parciais. […] A simples solidariedade bastaria, pois, quando um pouco extensa, para indicar a insuficiência do poder prático e a necessidade de uma autoridade teórica que, privando-se de toda ação especial, faça prevalecer constantemente a harmonia geral. A continuidade, porém, da qual depende cada vez mais a ordem humana, torna essa necessidade plenamente irrecusável. Esses poderes empíricos, aspirando a dirigir o presente, não conhecem o passado que o domina, nem o futuro que ele prepara. Por isso a intervenção deles permanece cega e amiúde perturbadora, quando não a subordinam aos conselhos teóricos. Ao mesmo tempo, a influência sacerdotal lhes é indispensável, como a única capaz de consagrar assaz seu ascendente material quase sempre exposto a invejosas contestações. Cada consagração consiste em representar o poder correspondente como o ministro de um poder superior geralmente respeitado: Deus sob o regime provisório, a Humanidade na ordem definitiva. Ora, isto supõe sempre, mas sobretudo em relação a este estado final, que o presente se prende dignamente ao passado e ao futuro. O sacerdócio, único que pode instituir esta dupla ligação, torna-se, assim, o consagrador necessário de todos os poderes humanos, sem precisar ele próprio de nenhuma consagração estranha, pois é o órgão direto da suprema autoridade. […] Eis aí de onde procede este segundo axioma: Nenhuma sociedade se pode desenvolver e conservar sem um sacerdócio qualquer. Semelhantemente indispensável a todos para a educação e para o conselho, só este poder teórico é capaz de consagrar os governantes e de proteger os governados. Ele constitui o moderador normal da vida pública, como a mulher o da vida privada, conquanto estas duas existências exijam, aliás, o concurso contínuo da influência moral com o poder intelectual. Podeis resumir o conjunto das atribuições sociais do sacerdócio qualificando-o de Juiz, segundo a expressão bíblica, porquanto seu tríplice ofício de conselheiro, de consagrador e de regulador se efetua sempre julgando, isto é, mediante uma apreciação respeitada. […] Qualificando de espiritual o poder teórico, faz-se assaz sentir que o outro é puramente material. Por este modo fica indiretamente assinalada a melhor comparação social que esses dois poderes comportam, a qual consiste em considerá-los como disciplinando, um as vontades, e o outro os atos. Reciprocamente, qualificar de temporal o poder prático é recordar assaz a eternidade que caracteriza o poder teórico. Isto posto, podemos definir suficientemente seus domínios respectivos: de um lado o presente, do outro o passado e o futuro; um institui especialmente a solidariedade, o outro a continuidade; a um pertence sobretudo a vida objetiva, ao outro a vida subjetiva. Ora, estes dois atributos essenciais, simultaneamente indicados pela própria discordância dos nomes usados, concorrem para lembrar também a última oposição entre os dois poderes humanos, quanto à sua extensão respectiva. De fato, a potência teórica, já como espiritual, já como eterna, comporta espontaneamente uma inteira universalidade, ao passo que a autoridade prática, por ser material e temporal, permanece necessariamente local. Deste contraste final resulta a separação das duas, logo que ele se desenvolve assaz.” (Comte, Catecismo Positivista, pp.239-41)

PROGRESSO e RELIGIÃO
O domínio prático da religião limita-se […] às disposições verdadeiramente universais, sem penetrar no preenchimento especial de cada ofício. Ela deve, contudo, apreciar exatamente as diversas funções sociais, mas só para lhes prescrever as regras adequadas a conservar e desenvolver a harmonia geral. Tudo o que se refere à execução particular pertence aos diferentes modos ou graus do governo propriamente dito, quer privado, quer público, e nunca ao sacerdócio. […] A fim de precisar melhor esta distinção fundamental, cumpre agora estender ao progresso a divisão geral que o estudo do dogma vos tornou familiar em relação à ordem. Pois que decompusemos primeiro a ordem universal em ordem exterior e ordem humana, devemos apreciar semelhantemente os aperfeiçoamentos que ela comporta. Distinguem-se, assim, duas espécies de progresso, um exterior, outro humano. Posto que ambos se refiram finalmente a nós mesmos, só o último diz respeito à nossa própria natureza, e o primeiro limita-se à nossa situação, que ele melhora reagindo sobre todas as existências capazes de afetar a nossa. É por isso que esse progresso exterior é habitualmente qualificado de material, se bem que se estenda à ordem vital propriamente dita, mas apenas em relação às espécies que nos servem de provisões ou de instrumentos. O ponto de vista do progresso sendo necessariamente mais subjetivo que o da ordem, a uniformidade da linguagem nem sempre corresponde, nele, à identidade das noções. […] Esta distinção basta para introduzir convenientemente a divisão fundamental entre os domínios práticos do governo e do sacerdócio. Concebendo todas as forças sociais como igualmente votadas ao aperfeiçoamento universal, é mister, assim, distingui-las conforme elas melhoram a ordem exterior ou a ordem humana. Tal é a melhor origem elementar da separação normal entre a ação temporal e a ação espiritual. A dignidade superior desta resulta, então, da preponderância natural do progresso correspondente. Assim, o domínio prático da religião consiste em aperfeiçoar a ordem humana, primeiro física, depois intelectual, enfim, e sobretudo moral. Apesar da diversidade destes três aspectos, eles devem sempre ficar inseparáveis, em virtude de sua íntima conexão, que cumpre respeitar ainda mais para a ação que para a especulação. Quanto à ordem exterior, seu melhoramento direto e especial não compete à religião: constitui o domínio próprio da política ou da indústria. Todavia, a religião acha aí indiretamente uma participação importante, porém geral, pela grande influência que o estado do agente humano exerce necessariamente sobre os resultados efetivos de sua ação qualquer. Em toda operação prática, o bom êxito exige em primeiro lugar que cada cooperador seja honesto, inteligente e corajoso. Mas é só neste sentido que a religião tem sempre uma parte na constituição fundamental de cada indústria especial.” (Comte, Catecismo Positivista, pp.238)


Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Grupo de Pesquisa Conhecimento, Tecnologia e Mercado (CTeMe).
Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA).

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